Coruja, Espectral, Rorschach, Dr. Manhattan…Antes de Watchmen: uma grata surpresa

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Chame de Indústria Cultural, sociedade de consumo, cultura pop, esperteza ou do que quiser, o fato é que – seja nos quadrinhos, no cinema, nos livros ou na TV – quando uma fórmula dá certo, pode esperar que será repetida. No mundo das HQs, em específico, quando uma história é sucesso de vendas está fadada a ter continuações ou, quando isso é impossível, “prequels” (“pré sequências”, ou seja, histórias anteriores ao título principal).  E é até de se surpreender que tenha levado tanto tempo para que alguém pensasse em aplicar a regra ao megasucesso Watchmen, criado em 1986 de Alan Moore e Dave Gibbons.

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O bestseller original foi um dos quadrinhos mais vendidos e comemorados em prosa e verso no mundo, ao estabelecer não apenas um tipo de narrativa incomum até então nas HQs – intermediando os quadrinhos em si com textos fictícios escritos por ou sobre os personagens e até mesmo ter uma história em quadrinhos dentro da história em quadrinhos – como também inovando no argumento. Muito bem amarrada, a história de Watchmen mostrava um mundo no qual os super-heróis tiveram que escolher entre trabalhar para o governo ou se recolherem à clandestinidade. Quem não escolheu defender o Tio Sam em geral se aposentou ou acabou morto, com raras exceções.

Assim, com o auxílio do poderoso dr. Manhattan, os EUA ganhou a guerra do Vietnã e é uma super potência sem concorrentes, ainda que o mundo viva sob ameaça nuclear, e a história mostra o que acontece quando um misterioso assassino começa a eliminar todos os heróis, possivelmente em um plano orquestrado por uma mente brilhante e que tem a ver com algo muito maior (ao menos é o que desconfia o paranoico, violento e fora da lei herói Rorschach). Esse pequeno resumo não faz jus à obra, que também virou um bom filme e merece ser lida caso o leitor ainda não o tenha feito. Mas nem é o caso, visto que este texto é sobre Antes de Watchmen, uma série de oneshots lançados neste ano pela Panini que têm como pano de fundo mostrar o que aconteceu previamente aos acontecimentos da série.

Quando foi lançada nos EUA, houve quem pensou que seria apenas mais uma série caça-níqueis. Também não faltou temor em relação ao estrago que o título poderia fazer, afinal ninguém se esquece do desastre que ocorreu quando Erik Larsen resolveu lançar uma “prequel” para contar a origem de seu bom personagem Savage Dragon (esta HQ já saiu no Brasil e se você não viu, sorte sua. Acredite, desastre é pouco). No entanto, felizmente para o leitor e para a história, Antes de Watchmen é uma grata surpresa, com belos argumentos e à altura do título original.

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Até o momento quatro revistas já foram lançadas pela Panini – a última, Dr. Manhattan, ainda é encontrada nas bancas, mas é fácil achar as anteriores em megastores e na Internet.  Cada exemplar é dedicado a um personagem ou grupo que faz parte da HQ original, compondo nove no total. Por enquanto, aqui no Brasil, está previsto o lançamento de oito: Coruja, Espectral, Rorschach, Dr. Manhattan, Minutemen, Comediante, Dollar Bill e Minute Men.

Todos eles são histórias completas e, sim, é preciso ter lido Watchmen antes para apreciá-las amplamente, já que não apenas os personagens como também fatos que ocorrem em cada revista estão intrinsecamente relacionados com a obra original e muitas vezes revisitam trechos da HQ de Moore e Gibons sob outros pontos de vista. Isso dito, segue uma pequena análise de cada um dos lançados e o que vem por aí (obviamente, os textos abaixo adiantam alguns fatos das histórias, por isso se não quer arriscar ter alguma surpresa antecipada, melhor parar a leitura por aqui).

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Enquanto pensa melhor nisso, um parêntese: Alan Moore com certeza não pensou em um passado para seus personagens mais do que o já exibido nas páginas de Watchmen até porque, vale lembrar, reza a lenda que originalmente ele queria fazer a história com personagens já existentes no mercado, mas como havia gente que morreria, a ideia foi posta de lado (o Coruja, por exemplo, pode ser visto como o Besouro Azul, Rorschach seria o Questão, Ozymandias tem muito de Batman e Manhattan teria sido inspirado em Capitão Átomo, ainda que tenha um quê de Superman também).  Ainda assim, Antes de Watchmen se encaixa perfeitamente na história original, para alegria dos leitores.

Vale lembrar ainda que todos os exemplares trazem também capítulos de “A Condenação do Corsário Carmesim”, a HQ dentro da HQ original. Dispensável, mas há quem goste.

Já lançados no Brasil 

Coruja – O primeiro da série lançado por aqui é um dos melhores. Mostra a infância de Dan Dreiberg, na qual por trás da riqueza material se escondia o jovem vítima de bullying e cujo pai abusava da mãe. O leitor descobre então como Dreiberg usou a figura do primeiro Coruja para enfrentar o mundo e como descobriu a identidade do herói e o substituiu. Ainda na HQ, o trio de autores J.Michael Stravinsk, Andy Kubert e Joe Kubert revelam os primeiros momentos da parceria de Dreiberg com Rorschach, em aventura na qual a dupla se depara com um serial killer assassino de prostitutas, o Coruja se apaixona por uma dama da noite e os dois heróis descobrem que tem mais em comum do que imaginam, ainda que cada um aja e reaja à sua maneira.

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Espectral – Depois de sofrer com a fama da mãe (na escola) e cansada da pressão de ser treinada para ser substituta da própria, Laurie Jupiter foge com o namorado para a San Francisco da paz, drogas e amor livre. Mas o lado heroína da moça vem à tona e assim o leitor vê o começo da carreira de Espectral, lutando contra traficantes de uma droga que transforma a geração hippie em consumistas enfreáveis.  Em paralelo,a mãe da moça – Sally – coloca na pista da filha o Coruja original e o (como quem já leu Watchmen sabe) pai de Espectral, o Comediante. Uma sacada da HQ é mostrar como, mesmo sem que Laurie soubesse, o pai mudou a vida dela para sempre (não necessariamente de uma maneira boa) e, em contrapartida, revelar que um certo broche muito famoso de Watchmen é na realidade uma lembrança do distorcido amor paternal. E, no final da história, o leitor ainda descobre que o famoso “sorteio” de duplas que colocou a moça ao lado do Dr.Manhattan não teve tanto a ver com sorte como se imaginava.  Ah, sim, esta arco é da dupla Darwyn Vooke e Amanda Conner.

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Rorschach – O mais fraco da série até agora, talvez (ironicamente) porque trabalha com o personagem mais forte (psicologicamente) da série original. Rorschach é possivelmente o herói que teve mais sobre si e sobre o passado revelado em Watchmen, então não sobrou muito a contar. Na realidade, o episódio mostrado em o Coruja é mais revelador do que  o deste exemplar. Trata-se de uma história de Serial Killer a La Criminal Minds, com o alter ego de Walter Kozinsk tentando encontrar o assassino ao mesmo tempo em que enfrenta gangues nas ruas de uma Nova York de 1977. Rorschach, quase irreconhecível, exibe poucas habilidades do personagem criado por Moore e uma de suas marcas principais, a comunicação pelo diário, absurdamente descaracterizada. A dupla Brian Azzarello e Lee Bermejo simplesmente fez uma HQ policial, cujo personagem principal poderia ser qualquer um.

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Dr. Manhattan – Os fãs do seriado The Big Bang Theory e os conhecedores de física quântica reconhecerão de imediato a teoria do Gato de Schrodinger, que inteligentemente permeia toda esta história (aquela na qual o gato dentro de uma caixa com uma trava de veneno que pode ou não disparar está simultaneamente vivo e morto dentro da caixa, existindo em dois universos diferentes).  Pois aqui o virtualmente onipotente Dr. Manharttan inadvertidamente começa a criar inúmeros universos paralelos em que ele próprio existe de diferentes formas. A cada vez em que tem de tomar uma decisão, o personagem acaba fragmentando o universo em dois, um para cada opção que poderia tomar. Porém, todo os universos caminham para um fim trágico e Manhattan acaba tendo que unificá-los e, visando a achar uma solução na qual o mundo não acabe, termina gerando e alimentando sem saber o plano secreto de Ozymandias na série original. O curioso da HQ é que ela se passa antes de Watchmen, mas também no presente da série (pois tem inúmeras cenas dela) e no futuro. Nada mais normal, já que para Dr. Manhattan todos os períodos de tempo se misturam.

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Os que ainda não saíram:

Minutemen – O Coruja original, Hollis Mason, relembra aventuras do grupo e a oposição de alguns deles a sua autobiografia. Alguns segredos obscuros sob personagens que o próprio Mason cita no livro (Under the hood) são esclarecidos para o leitor, que descobre que alguns heróis não são tão heróis assim.

Ozymandias – Enquanto espera para que seu plano em Watchmen se encaixe, Ozymandias relembra a própria história de combate ao crime, sucesso empresarial e maquinações para salvar o mundo – destruindo parte dele no processo. Um dos mais elogiados títulos lá fora.

O Comediante – Trama política que revela como o Comediante agiu em relação à família Kennedy. Recebeu as piores críticas nos EUA.

Dollar Bill – A história de Bill Brady, um herói criado por uma empresa (em Watchmen, o personagem mal aparece).

Não anunciado: Molloch – A história do vilão que sobreviveu a Rorschach no original, mas morreu de câncer. Os poderes, como foi criado e porque se virou para o mal. É possível que aqui no Brasil este arco seja incluso em uma das outras revistas.

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