Dos olhos de Capitu: Mário Cau conquista dois jabutis com HQ de Dom Casmurro

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Os tais olhos de ressaca de Capitu tem dominado a imaginação dos leitores desde 1900, quando a obra escrita por Machado de Assis um ano antes foi publicada pela primeira vez. Desenhá-los foi um dos desafios que o quadrinista Mário Cau encontrou pela frente quando se dispôs a transformar em HQ um dos livros machadianos mais famosos. Um desafio que parece ter sido cumprido à altura, afinal a adaptação garantiu a ele e ao argumentista Felipe Greco não apenas um, mais dois prêmios Jabuti, considerado a maior honraria da literatura brasileira. Mais ainda, a graphic novel foi selecionada para integrar a partir deste ano o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) e em breve estará sendo lida por milhares de estudantes brasileiros.

“Eu lembro do dia  em que os resultados do Jabuti foram anunciados, em outubro do ano passado.  Tentei encontrar pelo celular, na internet, e vi que não tinha ganho nas categorias em que concorria. Fiquei tranquilo, afinal estar entre dez finalistas do Jabuti já era uma grande conquista e uma honra. Saí para almoçar com minha mãe e minha namorada, e quando voltamos para casa, o Felipe Greco me ligou, dizendo que tínhamos ganho o Jabuti. E era verdade: eu não sabia que eram três lugares para cada categoria. Não vencemos em primeiro, mas em segundo (Ilustração) e 3º (Didático e Paradidático). Comemoramos muito e eu fiquei meio confuso, depois feliz, depois assustado. Ganhar não um Jabuti, mas dois, com o mesmo trabalho, em quadrinhos, adaptando o Machado: isso era grande demais, para mim e para os quadrinhos nacionais também”, diz o artista plástico campineiro, que é formado pela Unicamp.

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Cau trabalhou ao lado de Greco por cerca de seis anos entre a concepção e a publicação da obra em quadrinhos. “Fui convidado em 2008 para o projeto de adaptar o Casmurro, escrito pelo Felipe e com mais dois desenhistas, Mário César (EntreQuadros) e Bira Dantas. Aceitei, meio relutante, pois achava que um capítulo de 30 páginas era muita coisa para um cara praticamente novato no mercado. O tempo passou, os outros artistas saíram do projeto e eu assumi a arte de toda a adaptação. Achei muito melhor assim, para manter uma unidade estética e tive muita liberdade na hora de compor as páginas, narrativas, cenários e personagens”, conta o artista que aprendeu a ler com cinco anos de idade, mas desenhava sem parar desde os três.

Apesar de já ter conhecimento do livro nos tempos de escola, Cau optou por reler Dom Casmurro, até porque acreditava que a primeira leitura havia sido feita muito cedo, com uma certa imaturidade (e por exigência do colégio). Assim, viu-se mais uma vez decifrando as palavras de Machado. Aliás, uma não: foram pelo menos mais seis vezes durante a produção da adaptação. E isso porque o texto da HQ, em si, não veio diretamente de Machado e sim do argumentista Greco, a quem coube a tarefa de transformar o livro em roteiro.

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“O Felipe Greco é, em suas próprias palavras, um ficcionista. Ele escreve muito bem, tem grandes ideias e não se contenta com pouco. Ele fez uma pesquisa extensa sobre figurinos, arquitetura, vocabulários e tudo o que fosse relevante daquela época, e isso tudo foi muito útil para eu desenhar.

Tive liberdade para criar os visuais dos personagens, mas, principalmente, para conduzir a narrativa do meu jeito. Cheguei a mudar bastante as páginas em relação ao roteiro. Não a trama em si, mas o jeito como as cenas se passam na página, dando mais dramaticidade ou acelerando passagens”, diz.

A liberdade para traçar os olhos de Capitu, portanto, foi total. Mas como fazê-los? “Eu sempre digo que compor o visual de um personagem que só foi descrito em palavras é muito complicado. Os leitores criam seus próprios personagens, escolhem seus ‘atores’ para interpretá-los. E a Capitu é muito mais difícil ainda: o Machado não descreve os personagens com muitos detalhes. O que é dito deles não é somente físico, mas emocional, gestual, é o feeling do personagem e não o físico.

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Desde a primeira vez que li Dom Casmurro,visualizava Capitu de um jeito. Quando comecei a desenhar, percebi que, para poder dar conta de produzir 200 e tantas páginas sobre a história de amor e ciúmes de Bento e Capitu, eu precisaria me apaixonar por ela. Então escolhi uma fisionomia que me agradasse e tivesse o que eu acho que são os olhos de ressaca. Aquilo precisava funcionar para mim, como funcionava para o Bento, pois é ele que narra a história toda. Capitu é uma personagem forte, importantíssima para a literatura, e espero que nossa interpretação dela esteja à altura da expectativa”, afirma.

Dom Casmurro tem 232 páginas e a editora Devir colocou à disposição do público duas versões, uma em capa dura (R$ 65,00) e outra em brochura (R$ 56,00). Com o sucesso da obra, Cau pensa em uma nova adaptação, que não revela ainda, até porque não é para já. Por enquanto, dedica o tempo às aulas de quadrinhos que ministra na Pandora Escola de Artes, trabalhos freelance (para editoras, agências e produtoras) e à webcomic Terapia (www.petisco.org/terapia). Também acaba de finalizar  um novo livro em quadrinhos, Morphine, que deve sair em 2014, bem como trabalha em outras HQs “na fila”, em projetos que  – faz mistério – ainda não pode divulgar.

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Em tempo, por falar em mistério, Cau ameaça, mas não fica em cima do muro em relação ao maior deles na obra que adaptou: Capitu traiu ou não traiu Bentinho afinal? “Eu poderia não responder, mas acho legal reforçar que Dom Casmurro é uma história narrada em primeira pessoa, pelo protagonista, o Bentinho. Todas as informações que recebemos são a opinião dele sobre fatos, e não verdade absoluta. Então, quando ele acusa Capitu de traição, quando vê o filho parecido com o amigo, tudo isso é opinião dele, e a opinião de um homem amargurado, rancoroso, ciumento e mimado.  Se Capitu traiu ou não, ninguém sabe, ninguém vai saber, e essa é a grande genialidade do Machado. Mas se eu tiver que dizer, e isso é na minha opinião, ela não traiu”, finaliza, entre risos.

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